A HISTÓRIA DO PATO FEIO. (Por seu criador, Ricardo Achcar.)

O Pato surgiu de um impasse completo de competir com São Paulo. A famigerada CBA no âmbito maldito de sua “cartolagem“ resolveu criar mais uma das suas hibridas imundices que nesta época denominou por protótipo CBA Divisão IV.

Estes penicos criados num laboratório em imitação ao gênio Elói Gogliano do Centauro Motor Clube, que manteve a custas de sangue, suor e muita lágrima as absolutamente perfeitas e brasileiras 1000 Milhas Brasileiras, elaboraram sob digestão intensa... um regulamento que permitia esta coisa que você aí chamada de Pato e que nada mais foi do que uma revolta intestina dolorosa em resposta a impossibilidade absoluta de fazer frente às equipes de competição de São Paulo.

Sim foi, um chassis de Aranae formula Vê “Geminado”com alguma perícia. Tinha tudo que o regulamento exigia, dois lugares, limpador de para brisas, “MONO farol” uma suspensão acertada que já transpirava muito da minha experiência, anos adiante comprovada, de bem visualizar geometrias de suspensão.

Agora, a parte boa dessa explosão literária contida (40 e fumaça anos) é que os nossos (realmente amados, sinto saudades de todos) pilotos da verdade brasileira, São Paulo, traziam o que tinha de mais apurado da Itália na categoria GT, sofisticadíssima na época onde a “boçalidade” da CBA achou que não havia quem produzisse uma “catronga” que fizesse sombra e empanasse o brio da turma de verdadeiros campeões do Brasil e sua florescente indústria automobilística que gerava a exclusiva casta de “Pilotos de Fábrica”.

Então aquela manhã de domingo, por volta das 06:30, horário de caserna, eu consegui tirar o Miltinho Amaral a tapas (um horror) do motel Hollywood do Inacinho Loyola lá no canto da subida para o alto da Tijuca. Arranquei-o dos braços de duas frangas lindas e empurrei-o para dentro do carro e fomos nos encontrar no autódromo com o Antônio Ferreirinha que, lá na pista, acabava sozinho de tirar o motor da minha Kombi, um 1600cc afinado por ele...e já espumava de raiva, impropérios e outros mais, enquanto montava sozinho sempre, o dito cujo no Pato.

Finalmente a turma dos paninhos apareceu, limpa aqui e cospe ali e o brilhante Pato decorado a deboche, ninguém sabia como, havia feito o segundo tempo e era portanto o numero dois na largada. Isso tudo porque na véspera, ainda equipado com um motor emprestado do Chico Pinto do ferro velho dele, chegamos a conclusão que o raio do Pato “quaquejava” mais alto do que podíamos ter imaginado. Daí a idéia de botar mais uns cavalinhos com o meu 1600cc da minha Kombi. De fato acertamos na escolha. Eu já vinha meio descreditado com as mangueiras do Simca-Achcar que um bandido chamado Zampa (Marcus Zamponi, esse mesmo) havia apelidado de “vem-quente–que eu–estou-fervendo” por causa da mangueira que estourava no meu pescoço quando o motor fervia, portanto, eu me sentia mais esperançoso.

A turma de São Paulo efetivamente queria nos comer vivos e havia promessas da Alfas passarem por cima do Pato, esganiçasse o quanto quisesse. O Loli (Ubaldo Loli) efetivamente assustava porque era já história o caso de Petrópolis e a briga de pista que travara com o Luiz Pereira Bueno e que infelizmente resultou num lance incontrolável na morte do Cacaio. Mas de todos, até hoje eu me arrepio quando chego perto dele, o Zambello espumava e eu não podia tirar a razão dele. Envolvido até o pescoço comercialmente com a Alfa-Romeo e por tradição de raízes Italianas que não se brinca, o homem não sabia se mastigava os cartolas ou nos fuzilava.

Mandei o Milton ir lá gaguejar um bom dia e o resultado foi que eu tive que largar porque o Milton por pouco não volta para o motel. Havíamos combinado de ele largar porque pelas trocas eu chegaria na última etapa se o penico não explodisse. Essa premissa da explosão era real na medida em que o tanque de combustível....era o assento do co-piloto de acordo com a necessidade de ser um bi-posto o Divisão IV. Depois de cumprimentar o Zambello o Milton não queria largar de jeito nenhum. O Ferreirinha finalmente ameaçou dar tamancadas no Milton e graças ao Manoel as coisas se acomodaram.

Ninguém mais viu o Milton até a hora da troca de pilotos e especialmente depois que ele viu onde e como o Pato estava andando. Aí o “Pau Queimado” deu o show dele.

Foi um dia da Graça de Deus para essa equipe. Nunca podemos nenhum de nós esquecer que o Pato foi minha idéia e concepção, mas foi na alma um HEVE nas mãos do Herculano Ferreirinha que de fato construiu com suas mãos, sua turminha onde havia um Pelé que me chamava de seu “Ritardo” porque tinha, creio uns 86 dentes na boca. Bob Sharp é testemunha viva de que não estou mentindo.

Até hoje corro atrás do desgraçado que botou o nome de Pato na obra. Corro também atrás de quem acrescentou o Feio. Pato Feio.

Só não corro atrás de quem volta e meia pergunta: afinal quem fez o Pato Feio? Alex Dias Ribeiro? José Moraes e demais?
Não corro atrás porque acredito que, acabamos sempre adquirindo o rosto da nossa verdade.

Comentários

Anônimo disse…
Ricardo e Maurício
Foi uma pena que Paulo Gregory que edita os filmes pra mim andou ocupado durante estas últimas três semanas não tendo tempo pra editar os dois filmes que estão faltando, pois estou com o filme de estréia do "Patinho Feio" nas 250 Milhas do Rio de Janeiro 68.
Neste filme o "Patinho" aparece bastante, por sinal estreou fazendo bonito, chegando em segundo lugar, após intensa briga com as duas Alfas GTA de Ubaldo Lolli e Emílio Zambello.
Maurício, esta corrida foi aquela que participei em parceria com Fernando Calmon com minha carroceria de fibra do Karman-Ghia e motor VW 1600 com carburador Jaguar de Fernando Calmon que estava rateando à beça e Ricardo conseguiu acertar após o treino de classificação em um minuto.
Ricardo, meses atrás, num desses blogs de automobilismo havia feito confusão e falei que o carburador era o Stromberg.
Bem, conversando contigo, você disse que o carburador era de Jaguar, mas não o Stromberg. Como havia tomado umas cervejinhas contigo me esqueci de novo a marca, se puder, por favor, diga aí pra gente a marca e diâmetro, aí irei salvar no computador pra não esquecer mais.
Abraços,
Sidney Cardoso
joaquim disse…
Já conhecia a história do Patinho Feio I, mas nunca contada pelo seu criador, Ricardo Achcar.Como já afirmei antes, o Aranae alargado foi o primeiro e único. O apelido do Camber veio depois e levou o epíteto pois uma jornalista assim o chamou numa matéria da QR.
Confraria 96 disse…

Excelente história.
Com o filme que o Cardoso tem arquivado vai ficar excelente.
joaquim disse…
Ouvi essa história e outras da boca do próprio Antonio Ferreirinha, num daqueles fim de tarde na pista de Interlagos. Histórias mil que dariam um senhor livro.
Anônimo disse…
Sidney, a tal cervejinha que tomamos juntos no seu aniversario ainda não curou. Você ainda por cima volta a falar no carburador Stromberg. Aí companheiro, deu branco geral, Daí o atraso em te responder. Finalmente os neurônios se alinharam e espocou uma fagulha. O raio do misturador invertido era o SU de agulha coisa de Inglês e espetacularmente preciso e econômico se não entrasse uma poeirinha no cone onde a agulha corria...
Mas amigo, não fica desolado com o meu atraso e pipocar de memória. Depois que eu ouvi o Massa no programa do Bem Amigos... de ontem (acho que foi reprise), quando algum jornalista iluminado falou do regulamento da FIA na F1 que o "combustível deve permanecer na faixa de variação de temperatura em 10 graus e perguntou ao piloto o porque desta exigência e o mesmo na frente de todos os iluminados com mais de 20 anos de Formula 1 não saberem a resposta, depois ainda por cima o Massa fazer a comparação do Lauda rodopiar na pista quando testou ou tentou andar num F 1 da atualidade e ninguém entender porque o Lauda rodopiou eu me encolho na penumbra e tento calar a boca até que você vem me espetar uma pergunta complicada. Enfim, no desespero, alguém diga aos jornalistas technikos de Formula 1 com mais de 20 anos de janela que quanto mais a temperatura for baixa, maior a densidade do combustível, ou seja, passa mais da coisa que explode no cilindro e dá coice no pescoço da gente! Será que estes jornalistas iluminados jamais souberam que o gênio Nelson Piquet já colocava gelo seco na tubulação de passagem de combustível do Polar Super Vê que fez degrau na sua espetacular carreira de piloto, criador, inventor, modificador e pilotagem magna com toque de Mozart? Tomem Vodca licorosa ou seja congelada...Uma nação se cria nos degraus da historia, por isso Sidney Cardoso, gente e piloto como você se torna patrimônio e alma do esporte motor brasileiro, este automobilismo que teima em consagrar o piloto que vai para o "exterior" porque o brasileiro ainda acha que mora no "interior". Que dificuldade que temos em reconhecer nossa genialidade!
Os pilotos da Formula 1 de hoje, salvo o Michael exclusivamente, não sabem nada. E todo o contexto do binômio engenharia de box e pilotos, cada um sabendo um pedaço da receita resultam nestas catrongas com 7 graus de camber negativo nas rodas da frente. Alguém sabe porque estas geringonças precisam caminhar de pata aberta? Passa pela cabeça destes iluminados gênios da F1 que existe um limite para uma coisa chamada de "slip angle" do pneu contra o solo, que este limite é determinado pelo percentual de ativação do autoblocante? Que o excesso indiscutível de entrei-eixos longo dos F1 da atualidade é uma limitação de todos os construtores sem exceção conseguirem fazer um carro mais curto de eixos, "antecipador" de tangências que será necessariamente mais rápido? Esteja certo que se sabe, não está na F1. Me deixa voltar paras as sombras...
Ricardo Achcar
Anônimo disse…
Oi, Ricardo
Desculpe-me só estar te agradecendo agora, acontece que meu modem pifou e fiquei sem entrar na internet estes dias.
É, agora que você falou me lembrei do carburador SU.
Você disse que se entrasse uma poeirinha era fogo, pois naquela corrida caiu um parafuso dentro dele e depois foi para o cilindro, resultado é que ficamos em três cilindros.
No filme você verá a diferença do carro logo no início e depois disto.
Sobre o programa e as declarações, ultimamente tenho ouvido tantas besteiras dos especialistas que nem esquento mais.
Forte abraço,
Sidney Cardoso